Condição

Entorse de tornozelo

O pé vira para dentro, dói na hora e incha em seguida. É uma das lesões mais comuns que existem, e também uma das mais mal tratadas: metade das pessoas volta a torcer.

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Ilustração 3D de um tornozelo com os ligamentos laterais em destaque

Resumo rápido

  • A torção mais comum é para dentro, e atinge os ligamentos da parte de fora do tornozelo.
  • Inchaço e roxo não indicam gravidade de forma confiável, e podem aparecer em lesões leves.
  • Nem toda entorse precisa de raio-X, mas alguns sinais tornam o exame necessário.
  • Voltar a mover cedo, dentro do que a dor permite, funciona melhor do que imobilizar por semanas.
  • Sem reabilitar equilíbrio e força, a chance de torcer de novo é alta.

O que acontece na torção

O tornozelo tem ligamentos dos dois lados, e eles não são iguais. Por fora, três feixes relativamente finos seguram a articulação. Por dentro, um ligamento em leque, bem mais robusto. Essa assimetria explica quase tudo: quando o pé vira, ele quase sempre vira para dentro, e quem paga são os ligamentos de fora.

O feixe da frente, que liga a fíbula ao osso do tálus, é o primeiro a ceder e o mais lesado. Se a energia da torção for maior, o feixe abaixo dele entra em seguida.

A lesão vai de fibras estiradas até ruptura completa. E, ao contrário do que se imagina, o quanto incha e o quanto fica roxo não indicam bem a gravidade. Sangue que se espalha pelo tecido produz manchas que descem até os dedos depois de alguns dias, com aspecto alarmante e pouca correlação com o que se rompeu.

Graus

GrauO que aconteceComo costuma se apresentar
IEstiramento das fibras, sem rotura significativaDor localizada, inchaço discreto, dá para caminhar mancando
IIRotura parcialInchaço evidente, dificuldade de apoiar, sensação de tornozelo frouxo
IIIRotura completa de um ou mais ligamentosInchaço grande e rápido, apoio muito difícil, instabilidade nítida

A classificação orienta expectativa mais do que tratamento. Mesmo o grau III costuma ser tratado sem cirurgia na maior parte dos casos, com reabilitação bem conduzida.

Quando o raio-X é necessário

A maioria das entorses não tem fratura, e pedir imagem em todo mundo não muda desfecho. Existem critérios clínicos bem estabelecidos e validados que ajudam a decidir, e vale conhecê-los para saber o que perguntar.

A imagem tende a ser indicada quando há dor ao apertar diretamente o osso, na borda posterior ou na ponta de qualquer um dos maléolos, aqueles caroços ósseos dos dois lados do tornozelo. Também quando dói ao apertar a base do quinto metatarso, na borda de fora do pé, ou o osso navicular, na parte de dentro do meio do pé. E quando a pessoa não consegue dar quatro passos apoiando o pé, tanto logo após o trauma quanto no momento do atendimento.

Dor no tecido mole, um pouco à frente e abaixo do maléolo de fora, com apoio possível, aponta para lesão ligamentar sem fratura.

Vale prestar atenção à base do dedinho. Fratura ali é fácil de confundir com entorse, dói num ponto vizinho e tem tratamento diferente. A página sobre raio-X do pé explica o que o exame mostra e o que passa despercebido nele.

O que fazer nas primeiras 72 horas

Reduzir carga sem abolir movimento. Apoiar o pé no que a dor permitir, usar muleta se necessário nos primeiros dias, e voltar a caminhar assim que der.

Gelo por 15 a 20 minutos algumas vezes ao dia, com pano entre o gelo e a pele, ajuda no controle da dor. Compressão com bandagem elástica e elevação do pé acima do nível do quadril reduzem o inchaço, principalmente nas primeiras 48 horas.

Começar a mexer cedo, dentro do tolerado: desenhar o alfabeto no ar com o pé, subir e descer o tornozelo devagar, transferir peso em pé. O tecido responde melhor a movimento controlado do que a repouso completo, e imobilizar por semanas costuma deixar o tornozelo rígido, fraco e mais propenso a torcer de novo.

O que evitar nas primeiras horas: calor, massagem vigorosa no ponto da lesão e álcool, que aumentam o sangramento local e o inchaço. Se o inchaço piorar bastante depois do terceiro ou quarto dia, isso merece avaliação; a página sobre pé inchado traz outras causas.

A parte que quase todo mundo pula

A entorse tem um número que assusta: uma parcela grande de quem torce volta a torcer, e uma fatia relevante desenvolve instabilidade crônica, com sensação de falseio meses ou anos depois. A explicação principal não é ligamento frouxo. É propriocepção.

Dentro dos ligamentos existem receptores que informam ao cérebro a posição da articulação. Quando o ligamento é lesado, essa informação piora, e o tornozelo perde parte do reflexo que corrige o pé ao pisar num buraco. A dor some, o inchaço some, e esse déficit fica.

Ele se recupera com treino específico, e a peça central é banal: ficar de pé sobre uma perna só. Comece com dois minutos por dia, olhos abertos, no chão firme. Avance para olhos fechados, depois para superfície instável, depois adicionando movimento com a outra perna. Junto disso, fortalecer os músculos que giram o pé para fora e trabalhar panturrilha e quadril.

Quem joga futebol, vôlei ou basquete tem risco maior de repetir, e o retorno deve incluir mudança de direção e salto antes de voltar ao jogo. A página de futebol trata do que muda em campo.

Tornozeleira funcional ou bandagem nos primeiros meses de retorno ao esporte reduz a chance de nova entorse. Ela não substitui o treino de equilíbrio.

Critérios para voltar, em vez de datas

Calendário é um mau conselheiro aqui, porque duas entorses do mesmo grau evoluem em ritmos diferentes. Alguns critérios são mais confiáveis do que contar semanas.

Caminhar sem mancar, em ritmo normal, sem pensar no pé. Subir e descer escada sem apoiar na parede. Ficar sobre uma perna só, de olhos fechados, por um tempo parecido com o do lado bom. Correr em linha reta sem dor e sem inchar depois. Saltar com um pé só e aterrissar controlado, sem o joelho fugindo para dentro. Mudar de direção em velocidade, se o seu esporte pede isso.

Inchaço que reaparece depois do treino é informação, e não um detalhe a ignorar: ele indica que a carga daquele dia foi maior do que o tecido aceitou. Um pouco de inchaço ao longo de semanas é esperado; inchaço que volta ao nível dos primeiros dias, não.

Quando a dor não passa

Se depois de seis a oito semanas ainda dói, algo além da entorse simples pode estar envolvido: lesão da cartilagem do tálus, fragmento ósseo solto, lesão do ligamento da sindesmose, que fica entre os dois ossos da perna e produz dor mais alta e recuperação bem mais longa, ou lesão dos tendões fibulares, na borda de fora.

Dor persistente com estalo, travamento ou falseio repetido merece avaliação, geralmente com imagem mais detalhada como a ressonância magnética. Dor atrás do tornozelo, e não na lateral, aponta para outro lugar; vale ler sobre tendinite de Aquiles.

Quando procurar um profissional

Procure atendimento se não consegue apoiar o pé, se dói ao apertar o osso, se o tornozelo parece deformado, se há dormência ou pé frio e pálido, ou se o inchaço aumenta depois do terceiro dia. Torção em criança merece avaliação com mais facilidade, porque a placa de crescimento é mais frágil que os ligamentos.

E, se você tem diabetes, uma torção com inchaço prolongado merece atenção redobrada, pelas razões da página de pé diabético.

Este texto é educativo e não substitui avaliação presencial de um profissional de saúde.

Quando procurar atendimento

Estes sinais pedem avaliação presencial — não espere passar sozinho:

  • Não conseguir dar quatro passos apoiando o pé, logo após a lesão e também depois.
  • Dor ao apertar o osso do tornozelo, e não o tecido mole ao redor.
  • Dor ao apertar a borda de fora do pé, na base do dedinho.
  • Deformidade visível, pé fora do eixo ou dormência persistente.
  • Inchaço que só piora depois de três ou quatro dias, ou vermelhidão com febre.

Perguntas frequentes

Preciso fazer raio-X depois de torcer o tornozelo?

Nem sempre. Existem critérios clínicos bem estabelecidos que ajudam o profissional a decidir, baseados em onde dói ao apertar o osso e na capacidade de apoiar o pé por quatro passos. Se a dor está no tecido mole e você consegue caminhar mancando, a chance de fratura é baixa. Quem faz essa avaliação é quem examina você.

Roxo grande significa lesão grave?

Não de forma confiável. A cor vem do sangue que se espalha pelo tecido e pela gravidade, e costuma descer até o pé e os dedos alguns dias depois, o que assusta bastante. Entorses leves produzem hematomas impressionantes e algumas lesões sérias quase não mudam a cor.

Devo imobilizar com bota ou gesso?

A conduta atual para a maior parte das entorses privilegia apoio precoce e movimento dentro do tolerado, com bandagem ou tornozeleira funcional em vez de imobilização rígida prolongada. Imobilizar por semanas costuma deixar o tornozelo mais rígido e mais fraco. Casos graves e fraturas seguem outra regra, definida em consulta.

Quanto tempo até voltar ao esporte?

Entorses leves costumam permitir retorno em duas a quatro semanas, e as moderadas levam de seis a oito. O critério que mais importa não é o calendário: é conseguir correr, saltar e mudar de direção sem dor e com equilíbrio semelhante ao do outro lado. Voltar antes disso é o principal motivo de recaída.

Por que meu tornozelo continua falhando meses depois?

Depois de uma entorse, o tornozelo perde parte da noção de posição no espaço, e essa perda não se recupera sozinha. Isso produz a sensação de falseio ao pisar em terreno irregular. Treino de equilíbrio e fortalecimento recuperam boa parte disso; instabilidade que persiste apesar da reabilitação merece avaliação.

Referências

  1. Sprained Ankle OrthoInfo — American Academy of Orthopaedic Surgeons
  2. Sprains and strains NHS
  3. Ankle Sprains MSD Manuals

Conteúdo educativo, revisado e baseado em literatura médica. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional.

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