Condição

Neuroma de Morton

A queixa mais típica não é dor: é a sensação de haver uma pedra ou uma meia dobrada embaixo dos dedos, que some quando você tira o sapato.

Atualizado em
Ilustração 3D do antepé com o nervo entre o terceiro e o quarto dedos em destaque

Resumo rápido

  • É o espessamento do tecido em volta de um nervo que passa entre os ossos do antepé.
  • Aparece com mais frequência entre o terceiro e o quarto dedos.
  • A sensação clássica é de pedra ou dobra de meia embaixo da base dos dedos.
  • Tirar o sapato e massagear o pé costuma aliviar em poucos minutos, o que é um sinal característico.
  • Não é câncer nem tumor, apesar do nome.

O que é

Entre os ossos longos do antepé passam nervos finos que levam sensibilidade para os dedos. Eles correm por um corredor estreito, por baixo de um ligamento transversal que amarra as cabeças dos metatarsos, e não têm muito espaço para negociar.

Quando esse nervo é comprimido de forma repetida, o tecido em volta dele engrossa. Vira uma faixa fibrosa que ocupa espaço num corredor que já era apertado, e cada passo passa a apertar o que ficou maior. O resultado é o neuroma de Morton.

O nome é ruim. A terminação sugere tumor, e isso assusta gente que chega com esse diagnóstico. Não é. É reação de tecido a atrito, mais próxima de um calo interno do que de qualquer outra coisa.

O local mais comum é o espaço entre o terceiro e o quarto dedos, e depois entre o segundo e o terceiro. Nos demais, é incomum.

Como se manifesta

A descrição que mais se repete não menciona dor.

“Parece que tem uma pedrinha no sapato.” “Sinto como se a meia estivesse dobrada embaixo dos dedos e eu não conseguisse ajeitar.” “Tenho vontade de tirar o sapato no meio da rua.”

E quando você tira, alivia. Sentar, descalçar e massagear o antepé por um ou dois minutos costuma fazer o incômodo recuar, o que é um dos sinais mais úteis para diferenciar de outras causas de dor na mesma região.

Junto vêm sintomas de nervo: queimação que sobe pela base dos dedos, choque, formigamento e dormência na metade voltada de cada dedo vizinho. Pode haver a sensação de andar sobre um vinco de tecido. Costuma piorar em sapato de bico fino, em salto e depois de horas em pé. Melhora descalço e no chinelo largo.

O que raramente acontece: inchaço visível, vermelhidão ou dor ao apertar o osso. Se você aperta o osso e dói, a suspeita vira outra. Os sintomas de nervo têm páginas próprias em pé formigando e pé dormente, úteis quando o formigamento não se limita ao antepé.

Por que acontece

Calçado é o fator mais visível. Bico estreito comprime as cabeças dos metatarsos umas contra as outras e reduz o corredor por onde o nervo passa. Salto empurra o peso para a frente e aumenta a pressão nessa mesma região. Combinar os dois, o dia inteiro, por anos, é a receita mais comum, e explica por que o quadro aparece bem mais em mulheres.

Só que o sapato não age sozinho. Antepé largo, dedos em garra, joanete que redistribui a carga, mobilidade excessiva do primeiro metatarso e panturrilha curta que joga peso para a frente entram na conta. Esporte de impacto com muito apoio no antepé também, principalmente corrida com tênis apertado na largura.

Bursa inflamada entre os metatarsos com frequência acompanha o quadro e contribui para a compressão. Nem sempre dá para separar as duas coisas, e isso muda pouco o tratamento.

Como o diagnóstico é feito

O exame de consultório resolve a maior parte dos casos, e vale saber o que esperar.

O profissional aperta o antepé de lado, comprimindo os metatarsos uns contra os outros, enquanto pressiona com o polegar o espaço entre os dedos suspeitos. Quando existe um espessamento ali, essa manobra costuma reproduzir exatamente a sua queixa e às vezes produz um estalo perceptível, sinal descrito na literatura e bastante sugestivo.

Junto disso, se testa a sensibilidade das laterais dos dedos vizinhos, se examina se dói ao apertar o osso, e se olha o formato do antepé em pé e sentado. Doer no osso e não no espaço entre eles empurra a suspeita para outro lado.

A imagem entra quando a história não fecha, quando há mais de um espaço suspeito ou quando se planeja infiltração ou cirurgia. O ultrassom costuma bastar, é barato e permite examinar o pé em movimento, com o dedo do examinador no ponto que dói. Vale um detalhe: achados de imagem sem sintoma correspondente aparecem, e a decisão continua sendo clínica.

O que costuma ajudar

Trocar o calçado vem primeiro, e não é conselho protocolar: em parte das pessoas resolve sozinho. Procure caixa dos dedos larga, altura suficiente, salto baixo e material que ceda. Se você tira o sapato e vê a marca da costura na pele, o sapato é apertado, independentemente do número. Medir o pé no fim do dia evita metade dos erros de compra.

A almofada metatarsal é o segundo recurso e o mais mal posicionado. Ela precisa ficar atrás das cabeças dos metatarsos, e não debaixo delas: a função é abrir espaço entre os ossos levantando o arco transverso, o que só acontece se o apoio estiver antes do ponto que dói. Colada no lugar errado ela aperta mais. A página sobre palmilhas mostra a diferença.

Diminuir o tempo em salto alto, reduzir temporariamente o volume de impacto e trabalhar a mobilidade do tornozelo ajudam a tirar carga do antepé. Massagear o antepé e abrir os dedos com as mãos alivia crises.

Quando isso não basta, a infiltração local costuma ser o passo seguinte, com indicação médica. Existem também técnicas de ablação e, em último caso, cirurgia. A operação mais feita retira o segmento do nervo, o que resolve a dor na maioria e deixa dormência permanente na região correspondente. É uma troca, e vale ser apresentada como tal.

O que não resolve

Palmilha macia sem apoio nenhum. Amortecimento não abre espaço entre os ossos, e o nervo continua no mesmo aperto.

Separador entre os dedos, que atua acima e não no corredor onde o nervo passa.

Anti-inflamatório por longos períodos. Dor de compressão de nervo responde mal a esse tipo de medicação, e a maior parte do alívio vem de tirar a compressão.

Comprar tênis um número maior no comprimento. O problema costuma ser a largura, e sobra de comprimento faz o pé escorregar para frente dentro do calçado, o que piora.

Não é neuroma? O que fica ao lado

A mesma região dói por outros motivos, e a diferença muda o tratamento. Dor no osso, sem queimação, que piora ao apertar a cabeça do metatarso, costuma ser metatarsalgia ou sobrecarga da articulação. Dor que apareceu depois de aumento de treino e piora progressiva, com inchaço leve no dorso, levanta suspeita de fratura por estresse. Dor com rigidez matinal em várias articulações pede investigação reumatológica.

Quando a dúvida persiste, o ultrassom resolve boa parte dos casos, porque mostra o espessamento e permite examinar o pé em movimento.

Quando procurar um profissional

Procure avaliação se a dormência deixou de ir e voltar e passou a ser constante, se há perda de força, se a dor limita andar mesmo com calçado largo, ou se os sintomas apareceram depois de trauma. Formigamento nos dois pés, subindo em direção ao tornozelo, aponta para causas fora do antepé e merece consulta.

Quem tem diabetes deve levar qualquer alteração de sensibilidade nos pés a um profissional, pelo motivo detalhado na página de pé diabético.

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta, exame ou tratamento.

Quando procurar atendimento

Estes sinais pedem avaliação presencial — não espere passar sozinho:

  • Dormência que se instala e não some mais, mesmo descalço.
  • Perda de força no pé ou dificuldade para levantar os dedos.
  • Dor no antepé que começou depois de trauma ou salto, com inchaço e dificuldade de apoiar.
  • Vermelhidão, calor ou febre associados à dor.
  • Diabetes com formigamento, dormência ou qualquer ferida no pé.

Perguntas frequentes

Neuroma de Morton é um tumor?

Não. O nome confunde porque a terminação "-oma" costuma indicar tumor, mas o que existe ali é um espessamento de tecido fibroso em volta do nervo, resposta a compressão e atrito repetidos. Não é câncer e não vira câncer.

Por que dói mais entre o terceiro e o quarto dedos?

Esse é o espaço mais apertado do antepé e o ponto onde dois ramos nervosos se juntam, o que deixa o nervo mais grosso justamente onde há menos folga. O segundo espaço vem em seguida. Nos outros, o quadro é raro.

Preciso de ultrassom ou ressonância para confirmar?

O diagnóstico costuma ser clínico, feito pelo relato e por manobras no consultório, como apertar o antepé de lado enquanto se pressiona o espaço entre os dedos. A imagem entra quando há dúvida entre diagnósticos ou quando se planeja infiltração ou cirurgia.

A infiltração resolve de vez?

Ela pode reduzir bastante os sintomas por um período, e em parte das pessoas o alívio dura muito tempo. Não é regra, o efeito pode diminuir a cada repetição e há limite de quantas vezes se pode aplicar no mesmo ponto. A indicação, a substância e o intervalo são decisão médica.

Se eu operar, o dedo fica dormente?

A técnica mais usada retira o segmento do nervo, e isso deixa uma área permanente de dormência entre os dedos envolvidos. A maioria de quem opera considera essa troca aceitável quando a dor era limitante, mas é uma consequência esperada e não uma complicação. Vale saber disso antes de decidir.

Referências

  1. Morton's Neuroma OrthoInfo — American Academy of Orthopaedic Surgeons
  2. Morton's neuroma NHS
  3. Interdigital Neuralgia (Morton Neuroma) MSD Manuals

Conteúdo educativo, revisado e baseado em literatura médica. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento profissional.

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